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Áudio de mais de 16 minutos revela detalhes sobre caso de Melqui Galvão

  • Foto do escritor: Ana Laura F. Reis
    Ana Laura F. Reis
  • 2 de mai.
  • 4 min de leitura

Treinador teve prisão temporária decretada em Manaus. Caso reacende debate sobre segurança de mulheres no esporte, meses após denúncias contra outro grande nome da modalidade.


Melqui Galvão, acusado de crime contra menores em abril de 2026
Melqui Galvão, acusado de crime contra menores em abril de 2026

O professor e treinador de jiu-jitsu Melqui Galvão teve sua prisão temporária decretada pela Justiça de São Paulo e foi preso na terça-feira (28), em Manaus (AM). Ele é investigado por suspeita de crimes sexuais contra menores de idade. A prisão foi embasada, entre outros indícios, por um áudio de mais de 16 minutos enviado pelo próprio suspeito à família de uma das vítimas, no qual ele admite ter tocado na aluna enquanto ela dormia.

As investigações, conduzidas pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de São Paulo, reúnem denúncias de pelo menos três vítimas, incluindo uma adolescente de 17 anos e outra que tinha 12 anos na época dos fatos. Os relatos apontam para atos libidinosos não consentidos durante competições. Além disso, a mãe de uma das atletas denunciou que Melqui utilizava a estrutura de apoio oferecida (como alojamento, alimentação e passagens) para manipular, chantagear e silenciar as alunas com ameaças de corte de patrocínios.

A Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) e a International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) anunciaram o banimento imediato de Melqui Galvão de suas atividades e eventos.



A CONFISSÃO EM ÁUDIO


Áudio de Melqui Galvão para a família da vítima, antes da denúncia

No áudio enviado à família de uma vítima que morava em Jundiaí (SP) e treinava em sua academia, Melqui tentou justificar suas ações e pedir desculpas. Na gravação, ele afirma que tocou na barriga da menina enquanto ela estava deitada ao lado de uma amiga.


"Sua filha estava deitada em cima da [nome], a barriga dela estava aparecendo e eu toquei na barriga dela. Eu toquei rapidamente, eu achei que ela estivesse dormindo, uns três segundos talvez, no máximo. Me arrependo profundamente disso. [...] Eu não dei remédio para ela dormir. A mesma alantoína [calmante] que ela tomava, eu também tomava", disse o treinador.

O suspeito negou ter tido intenções sexuais e afirmou que queria apenas conversar a sós com a aluna em um quarto. Ele alegou que os cômodos não tinham chave e que seria "impossível fazer qualquer coisa" com outras pessoas na casa. "Eu nunca passei mais do que um beijo no rosto dela e um abraço nela", declarou.


Na gravação, Melqui alega que houve uma aproximação da vítima:

"Talvez tenha sido isso que eu tenha falhado com a [vítima], deixar ela se aproximar, deixar ela me tratar de uma forma diferente e isso criou coisas na minha cabeça. Não é culpa dela, a culpa é minha, tá?", afirmou, acrescentando ainda um tom de ameaça: "Se você denunciar, muita gente vai se prejudicar."


REPERCUSSÃO NO MEIO ESPORTIVO E FAMILIAR


Mica Galvão, sua esposa Amit Elor e o filho do casal
Mica Galvão, sua esposa Amit Elor e o filho do casal

A prisão de Melqui gerou um forte abalo na comunidade do jiu-jitsu, dividindo opiniões entre o choque, a indignação e o apoio aos familiares afetados.

O filho do treinador, o fenômeno do jiu-jitsu Mica Galvão, que conquistou o Grand Slam da modalidade e o ADCC em 2024, manifestou-se sobre o caso relatando profunda confusão. Ele afirmou precisar refletir sobre o assunto como atleta, filho e homem. Mica destacou que não apoia qualquer atitude de abuso, mas ressaltou que foi o pai quem o incentivou a iniciar no esporte e pisar no tatame pela primeira vez, evidenciando o momento delicado que enfrenta.

A esposa de Mica, a campeã olímpica Amit Elor, também se pronunciou após ser criticada por agir com suposta "normalidade" nas redes sociais. Ela explicou que busca manter boas energias apesar da dificuldade do momento, cobrou responsabilização e incentivou fortemente que qualquer mulher que tenha passado por assédio ou abuso denuncie e não se cale.

O lutador Diogo Reis, bicampeão do ADCC, amigo próximo de Mica e um dos novos líderes da equipe BJJ College, assumiu a liderança da academia. Ele afirmou ter gratidão por Melqui, mas repudiou qualquer forma de violência e defendeu a apuração rigorosa das denúncias. Diogo não se desvinculou da entidade, mas retirou qualquer apoio em relação ao caso.



Diogo Reis, campeão mundial de Jiu Jitsu
Diogo Reis, campeão mundial de Jiu Jitsu

Por outro lado, a lutadora Ana Rodrigues anunciou seu desligamento da academia BJJ College diante dos ocorridos, uma atitude que vem sendo seguida por outras academias que buscam se distanciar do escândalo.


Ana Rodrigues, bicampeã mundial de Jiu Jitsu
Ana Rodrigues, bicampeã mundial de Jiu Jitsu

CRISE DE IMAGEM E SEGURANÇA NO JIU-JITSU


André Galvão, acusado publicamente de assediar aluna em fevereiro de 2026
André Galvão, acusado publicamente de assediar aluna em fevereiro de 2026

O caso de Melqui Galvão ocorre poucos meses após outro escândalo abalar o esporte. Em fevereiro de 2026, o multicampeão André Galvão (sem parentesco com Melqui), dono da equipe Atos, foi acusado de assédio sexual por sua ex-aluna Alexa Herse, de 18 anos, nos Estados Unidos. Alexa relatou toques inapropriados, comentários sobre seu corpo e situações de constrangimento durante os treinos em San Diego (EUA). André Galvão negou as acusações, alegando tratar-se de vingança pessoal.

A sucessão de casos graves expõe uma ferida no ambiente das artes marciais, que é frequentemente descrito como pequeno, íntimo e fechado. A comunidade esportiva questiona até que ponto as mulheres estão realmente seguras nos tatames e se as recentes desvinculações de academias representam um esforço genuíno de proteção ou apenas uma tentativa de evitar danos à própria imagem.

Enquanto alguns expressam receio de ingressar na modalidade e relatam preconceitos baseados em más experiências, outros prestam solidariedade aos familiares envolvidos. O debate segue aberto sobre como tornar o esporte um ambiente seguro e livre de assédio.

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